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Ao menos sete escolas despontam com algum favoritismo no carnaval marcado por críticas e pelo distanciamento entre escolas e Prefeitura

A grande campeã do carnaval do Rio de Janeiro será conhecida nessa quarta-feira (6) à tarde. Foi um ano de desfiles políticos, repletos de críticas sociais e nos quais as escolas se propuseram a voltar ao passado, fosse do Brasil (Mangueira, Vila Isabel), da própria escola (São Clemente e Beija-Flor) para refletir o presente.

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A Paraíso do Tuiuti levou o bode para a avenida
Riotur/divulgação
A Paraíso do Tuiuti levou o bode para a avenida

Em um carnaval marcado por um forte sentimento de reencontro entre o samba e as comunidades, especialmente no Rio de Janeiro onde Prefeitura e escolas de samba parecem cada vez mais distantes, a crítica parece ser o denominador comum. 

Nesse contexto, a Paraíso do Tuiuti chega à apuração novamente como grande sensação do carnaval 2019 . Depois do vice em 2018, a escola apostou novamente na sátira política e levou coxinhas conservadoras para a avenida, assim como frases de Bolsonaro. O bode, que representa o voto de protesto - o bode ioiô foi eleito verador em Fortaleza em 1920 - foi percebido como uma deferência a Lula, algo que os dirigentes da escola não confirmaram, nem negaram. A ambiguidade só joga a favor da agremiação.

Fato é que o desfile da escola impactou menos do que em 2018. Já a São Clemente, da Zona Sul, reeditou um samba de 1990 ("O Samba Sambou") para criticar a mercantilização dessa grande festa cultural. Sobrou até para a Globo . A verve da crítica da São Clemente pode seduzir os mais românticos e saudosos do chamado carnaval raiz.

Já a Vila Isabel fez o desfile mais suntuoso da temporada. o carro abre-alas, com mais de 60 metros de extensão beira o pornográfico de tão luxuoso, mas o estouro de um minuto, que acarreta na perda de um décimo, deve minar as chances de título da escola que tem Sabrina Sato como rainha de bateria. 

A Mangueira também fez um desfile bastante político em 2019
Riotur/divulgação
A Mangueira também fez um desfile bastante político em 2019

A Mangueira, por seu turno, não tem nada que a desabone. A escola, outra que homenageou Marielle Franco, uma das figuras mais contumazes nas passarelas do samba neste ano, recontou a história do Brasil questionando a versão oficial dos livros escolares e fazendo um desagravo para índios e negros. Contagiou! A escola levou o Estandarte de Ouro do jornal O Globo de melhor escola de 2019.

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Em um ano marcado pela crítica, é o suficiente? Talvez não seja. O que parece claro é que a campeã deste ano sairá da segunda-feira. Nos últimos 40 anos essa tem sido mesmo a tônica no Rio de Janeiro. O que nos leva à União da Ilha, frequentemente distante do rol das favoritas, mas que impressionou em 2019. Do enredo, em que revisitou as obras de José de Alencar e Raquel de Queiroz, às alegorias.

As forças do domingo

Sabrina Sato, a rainha de bateria da Vila Isabel
Riotur/divulgação
Sabrina Sato, a rainha de bateria da Vila Isabel

A Viradouro, que no carnaval 2019 teve o retorno de Paulo Barros depois de 11 anos, é a grande ameaça a esse lugar-comum. A escola, que apresentou o enredo "ViraViradouro", sobre seres encantados, encantou a crítica e o público com suas alas criativas e as alegorias imaginativas e cheias de truques.

A reflexão levada pela Grande Rio, que teve a Comissão de Frente mais marcante de 2019, pode ser um fator surpresa. A escola ficou em penúltimo no ano passado e neste ano falou sobre o erro e as pressões da modernidade sobre as pessoas. Pediu conscientização. Foi um desfile high tech e cheio de inovações. Pode dar muito certo ou completamente errado. 

Há, ainda, o Salgueiro, que nunca pode ser excluído do rol dos favoritos. A escola que detém nove títulos, mas não ganha desde 2009 falou de justiça e espiritualidade, mostrando o orixá como símbolo de religiões e da imparcialidade. Foi um desfile emocional e tecnicamente acima da média.

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Independentemente de quem ganhar o título à tarde, o grande campeão é o carnaval do Rio de Janeiro, que soube reagir diante do cenário de crise e viu um tremendo impulso criativo tomar conta dos barracões e das comunidades.