Tamanho do texto

Algumas escolas de samba chegaram a suspender ensaios. A prefeitura defende que o corte de verbas foi necessário em virtude de crise econômica

O carnaval carioca tem enfrentado um intenso processo de readequação, ano após ano, graças ao corte cada vez mais rígido da verba fornecida pela Prefeitura. Em 2018, as escolas de samba do Rio de Janeiro sentiram o impacto da diminuição de 50% da verba recebida - o que dividiu opiniões acerca da gestão. No carnaval 2019 foi preciso intensificar esse processo de adaptação.

Mangueira critica Marcelo Crivella em 2018 pelo corte de verbas
Reprodução/Globo
Mangueira critica Marcelo Crivella em 2018 pelo corte de verbas

Leia também:  Carnaval: Sapucaí vive noite de protestos políticos intensos

Enquanto em 2017 a verba de incentivo cultural para o carnaval carioca era de R$ 23 milhões, em 2018 esse valor foi reduzido a R$ 7 milhões, dividido entre as 14  escolas de samba pertencentes ao Grupo Especial, resultando em R$ 500 mil para cada.

Embora a redução tenha sido implantada apenas na gestão de Marcelo Crivella , autor de discursos a respeito do carnaval que dividiram opiniões, em 2017 (ano em que Crivella assumiu como prefeito) essa verba já vinha apresentando um corte de 20% em relação ao ano anterior.

A Secretaria de Turismo do Rio de Janeiro (Riotur) justificou o redirecionamento do valor que não foi para as escolas de samba: “A prefeitura vem priorizando pastas com necessidades imediatas, como a Saúde e Educação".

A Riotur ainda apontou: "Com a economia gerada pela redução da subvenção, foi possível anunciar, em outubro de 2017, o aumento do repasse por criança atendida nas creches conveniadas de R$ 300 para R$ 600, pago de forma retroativa a partir de agosto do mesmo ano”.

Após o carnaval de 2018, a Fundação Getúlio Vargas fez um estudo apontando a movimentação econômica causada pela festa. Segundo a análise, apresentada em 2 de março, o carnaval carioca atraiu 6,8 milhões de pessoas e injetou R$ 3,2 bilhões na economia da cidade, um valor 6,8% maior do que o registrado no carnaval de 2017. Os estudos também apontaram que os gastos operacionais para a realização dos eventos foram de R$ 187 milhões.

No entanto, a Riotur enfatizou que a mudança na estratégia do repasse de verbas tem relação  puramente econômica: “A prefeitura reconhece a importância cultural, turística e econômica do carnaval mas, com a crise econômica atual que assola a cidade, amplamente noticiada, se fez mandatório repensar a política de repasses”.

Leia também: Escola de Samba se posiciona sobre escultura de diabo relacionada à Crivella

Corte de verba gera reações

Mangueira teve desfile polêmico em 2018 ao representar Crivella como Judas
Reprodução/Globo
Mangueira teve desfile polêmico em 2018 ao representar Crivella como Judas

Cientes da medida que entraria em vigor apenas em 2019, os Presidentes das confrarias fizeram oposição à decisão de diversas maneiras durante reuniões da Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), de acordo com o site Carnavalesco. No entanto, foi em novembro de 2018 que algumas escolas, como Mangueira e Mocidade Independente de Padre Miguel, resolveram cessar suas atividades por tempo indeterminado, devido ao atraso no repasse de verbas.

Segundo a reportagem da Globo Rio , a Prefeitura havia afirmado que existia um problema na arrecadação, por conta da crise financeira, e que já estavam promovendo reuniões com a Liga Independente das Escolas de Samba.

A relação governo-carnavalescos demonstrou ruídos já na folia de 2018, quando a Mangueira figurou Crivella como Judas em um de seus carros-alegóricos.

Em dezembro de 2018, Jorge Castanheira, líder da Liesa alegou, em entrevista ao Carnavalesco, não ter entrado em um consenso com a Prefeitura sobre o corte da verba: “Reduzir alegoria ou algo assim prejudicaria as apresentações das escolas e dos carnavalescos. Impactaria profundamente a qualidade do espetáculo planejado”.

O processo de adaptação

Acadêmicos do Sucesso polemiza com alegoria que remete a Crivella
Montagem / Divulgação
Acadêmicos do Sucesso polemiza com alegoria que remete a Crivella

Nas preparações do carnaval 2019 , após adiamentos, as escolas retomaram suas atividades. Em um embate político-cultural, os tópicos “reunião com o governo” e “manifestações contra o corte” tornaram-se cada vez mais brandos, até o vazamento da foto de uma alegoria da Acadêmicos do Sossego, em que Marcelo Crivella é interpretado como um demônio, dando a entender que era uma crítica ao corte efetuado. Após a repercussão na internet, a agremiação negou ser o prefeito.

A Riotur alegou que a medida vem sendo “discutida com os  representantes de todas as ligas das escolas” e que eles “reconhecem o cenário (do corte) e estão cientes da redução da subvenção”, e reforçou que o governo “vem se dedicando a captar recursos junto à iniciativa privada para compor o repasse às ligas e custear a estrutura de todo o carnaval”.

Rock in Sapucaí

Roberto Medina quer privatizar carnaval carioca
Divulgação
Roberto Medina quer privatizar carnaval carioca

Na última reunião das escolas, em dezembro de 2018, Jorge Castanheira alegou ter tido contato com Márcio Cunha, ex-diretor de operações do Rock in Rio, para unir seu know how ao movimento de captação privada da folia. “Não deu tempo de fazer a comunicação certa. A intenção é construir um planejamento para os próximos quatro anos e buscarmos um plano de negócios. A tentativa dele é na área de buscar novos parceiros e patrocinadores”, assegurou.

Praticamente um mês depois, o próprio criador do festival, Roberto Medina, afirmou que ajudaria na recuperação dos rumos dos desfiles do Rio de Janeiro: “Vou sentar com os caras (da Liesa) depois do carnaval e passar o que aprendi na minha profissão, para ver o que conseguimos melhorar para 2020", declarou em entrevista ao jornal O Globo .

"O carnaval, como está, é ruim para as escolas, para a TV e para o Rio. Está tudo errado. Nenhuma empresa internacional séria, vai patrocinar um evento sem saber a origem do dinheiro que gira ali. Um investimento de R$ 200 milhões não é nada. O estado tem R$ 40 bi de receita. A prefeitura, R$ 26 bi. Não falta dinheiro, falta a compreensão de transparência e organização”,  pontou Medina.

Leia também: Carnaval do Rio: Mangueira se destaca em noite marcada por protestos

Apesar da tentativa de Medina e a Riotur de aproximar o carnaval carioca da iniciativa privada, esse fenêmeno qu engloba as  escolas de samba  vem acontecendo de maneira orgânica. Em 2018, segundo informações colhidas pela PanRotas, o Brasil teve o carnaval mais privatizado de todos os tempos. Com investimentos da Uber e Dream Factory, os valores capitalizados pela Prefeitura chegaram a R$ 35 milhões.