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Escolas escolhem temas complexos e não fogem de assuntos polêmicos na Avenida, tanto em São Paulo como no Rio de Janeiro

Em 2018 a Paraíso do Tuiuti levou um desfile político para o Carnaval. Com um vampiro que lembrava o então Presidente Michel Temer, eles fizeram críticas ao governo, comentaram a falta de emprego no País, tudo isso em um enredo que questionava se a Lei Áurea realmente acabou.

Aílton Graça é o Papa Negro do Salgueiro
Divulgação/Riotur
Aílton Graça é o Papa Negro do Salgueiro

O momento – reflexo da efervescência política atual – seguiu até 2019 e muitas escolas estão levando para a Avenida temas capciosos, envolvendo questões sociais, políticas e raciais. A temática racial foi o principal destaque do Carnaval até agora, com muitas escolas expondo diferentes perspectivas sobre o racismo e a maneira como o negro é tratado no Brasil, desde sua chegada aqui como escravos.

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Mancha Verde
Divulgação/SASP
Mancha Verde

A Mancha Verde apostou na bonita história da princesa africana Aqualtune, avó de Zumbi dos Palmares, para falar sobre escravidão. A agremiação falou sobre as consequências do trabalho forçado e ainda discutiu a intolerância religiosa, já que muitos negros foram obrigados a abandonar suas crenças quando foram trazidos para o Brasil.

A intolerância religiosa também foi outro grande ponto de destaque no Carnaval 2019, desde o grupo de acesso. Na madrugada de sábado (02) a Acadêmicos do Sossego, do Grupo A carioca, pediu mais tolerância ao prefeito Marcello Crivella. Eles foram impedidos de exibir uma alegoria que mostrava uma figura diabólica que lembrava o prefeito.

Acadêmicos do Sossego
Reprodução
Acadêmicos do Sossego

No Grupo Especial carioca, o Salgueiro homenageou Xangô e também falou sobre intolerância. A Escola contou com a participação de ativistas e aproveitou para falar sobre a corrupção no Brasil.

Salgueiro
Divulgação/Riotur
Salgueiro

Por fim, Aílton Graça representou o Papa na Avenida, e o desfile terminou com uma grande passeata lutando pelo fim da discriminação. A escola, inclusive, foi uma das favoritas da noite e teve seu desfile muito elogiado.

Império Serrano, que homenageou a música O que é, o que é? de Gonzaguinha também falou sobre diversidade religiosa. Ao longo do desfile eles destacaram, além do cristianismo, o islamismo, judaísmo e budismos foram representados.

Passado revisto e reparação histórica

Vai-Vai
Divulgação/SASP
Vai-Vai

A escravidão foi abolida no Brasil em 1988, mas suas consequências seguem afetando a população negra até hoje. Com o intuito de lembrar o racismo no Brasil e contextualiza-lo no presente, muitas escolas destacaram a desigualdade social resultante disso no Carnaval 2019 , bem como exaltaram a população negra e suas raízes africanas.

Foi o caso da Vai-Vai que levou para a Avenida o tema “Quilombo do Futuro”. A agremiação não deixou de tocar em feridas como a escravidão, mas usou seu tempo na Avenida para celebrar a cultura negra e destacar suas lutas por justiça e igualdade.

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Recontando a história

Mangueira
Divulgação/Riotur
Mangueira

A desigualdade social, carregada há séculos desde a colonização brasileira, foi muito lembrada na Avenida. A Mangueira optou por reescrever a história do Brasil e destacar a violência e o rastro de sangue deixado pelos bandeirantes ao dizimar os índios que aqui viviam.

Nomes como Princesa Isabel, Dom Pedro I e Pedro Álvares Cabral foram retratados como “pequenos” enquanto a Escola buscou mostrar que essas importantes figuras da história tem um trajetória muito mais sangrenta do que é contada. Ao longo do desfile a Mangueira também buscou exibir heróis negros e indígenas que resistiram bravamente às investidas portuguesas.

Águia de Ouro
DivulgaçãoSASP
Águia de Ouro

A colonização portuguesa e a dizimação indígena também foram destaques da Águia de Ouro em São Paulo.

Por fim, a Tuiuti apostou novamente em política . Homenageando um bode que teria sido eleito deputado nos anos 1920, a Escola fez duras críticas a direita conservadora, comentou as consequências das eleições presidenciais e, assim como a Mangueira, homenageou Marielle Franco.

Paraíso do Tuiuti
Divulgação/Riotur
Paraíso do Tuiuti

A Unidos da Tijuca falou sobre o pão e usou o alimento também como forma de critica e teve uma ala fantasiada de vermes com a faixa presidencial. A Beija-Flor lembrou outros carnavais onde debateu temas políticos e a São Clemente fez uma crítica ao próprio Carnaval, apontando para pessoas e Escolas que deixam o significado do Carnaval de lado em busca de lucro e fama.

Contradição

Em ala que homenageou Marielle, Mangueira levou também essa bandeira para a Avenida
Reprodução/Riotur
Em ala que homenageou Marielle, Mangueira levou também essa bandeira para a Avenida

Mangueira, Vai-Vai e Salgueiro estão entre as escolas mais politizadas que receberam elogios e saíram do desfile com chances de vitórias. Mas tanto em São Paulo quanto no Rio, agremiações que se afastaram na polêmica também estão na briga pelo título. A Império de Casa Verde levou para o Anhembi ao cinema e dedicou seu desfile a memória da sétima arte.

No Rio, a Viradouro também evitou entrar em polêmicas e foi muito elogiada com um desfile que falava sobre mágica e fábulas.

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Historicamente, o Carnaval sempre teve um viés social. A festa mais popular do Brasil sempre contou com comentários sociais e políticos na avenida, mas a necessidade de diversificar os temas fez com que muitos se afastassem dessas temáticas. Mas o contexto atual favoreceu esses comentários em 2019, fazendo-se presente durante toda a folia.