Paulo Barros: "Luiz Gonzaga vai virar hollywoodiano"
Paulo Barros é chamado de revolucionário no mundo do carnaval por transformar carros alegóricos em alegorias vivas, repletas de coreografias. Sua marca transcendeu a Unidos da Tijuca, e hoje faz parte de várias agremiações. Agora terá que sinalizar para o caminho contrário. Após chegar na marca de duas mil pessoas coreografadas – entre carros e alas -, ele pretende levar para a Sapucaí menos da metade, cerca de 800 foliões com passo marcado, no enredo “O Dia em que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão”, uma homenagem a Luiz Gonzaga.
“Tenho um limite (de coreografias) muito reduzido porque a escola me fez uma solicitação. Eles queriam ter condições de vestir mais componentes ‘normais’, da comunidade. Ala específica no chão só tenho duas”, afirma ele em entrevista ao iG, no barracão da Unidos da Tijuca, na Cidade do Samba.
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Mantendo os olhos em uma alegoria que recebia adereços, o carnavalesco afirma que o comprometimento é o mesmo com todos os segmentos, inclusive a aclamada comissão de frente, marca registrada de seus desfiles. “Quem cria sou eu. Sou o criador do espetáculo e assumo tudo”, dispara, antes de dizer que não tira o mérito dos coreógrafos Priscila Motta e Rodrigo Negri, responsáveis pelo desenvolvimento do conceito concebido por ele.
Tem carnavalesco hoje que não sabe o que é a sua comissão de frente.”
Com o cronograma de trabalho bastante adiantado, Paulo mira em outro alvo, que tem lhe tirado o sono a três semanas do carnaval. Ele procurou o presidente da Riotur Antonio Pedro Figueira de Mello, para questionar a inclinação da pista da Sapucaí após as obras no Sambódromo. “Eles dizem que uma pista com uma inclinação de 42 centímetros é normal! E que ninguém reclamou. Agora eu que sou o ‘reclamão’?”, diz, irritado, já admitindo a possibilidade de desistir do projeto original da alegoria caso o problema não seja resolvido.
iG: Acha que esse enredo - bem brasileiro - pode servir para se livrar do estigma de carnavalesco hollywoodiano?
PAULO BARROS: Não, porque Hollywood continua. Luiz Gonzaga vai virar hollywoodiano. A maneira de executar o carnaval vem com a minha assinatura. Também esse conceito de jurado que entende ou não entende é muito subjetivo. Porque a escola não é julgada só pelo enredo ou pelas ideias. Ela é julgada por um todo. Ela também erra. E nem sempre isso está ligado ao artístico.
"A gente sempre vai ironizar, vai falar, vai reclamar. Isso faz parte até da cultura do carnaval"
iG: Ano passado, você respondeu com ironia a vitória da Beija-Flor, dizendo que faria um enredo sobre Neguinho da Beija-Flor. Por que deu aquela resposta?
PAULO BARROS: A gente sempre vai ironizar, vai falar, vai reclamar. Isso faz parte até da cultura do carnaval. Aquele momento é o momento do folclore do carnavalesco. No folclore, dei aquela resposta, ironizei, causei polêmica, mas não considero isso como uma forma definitiva de expressão e que sirva como um conceito: “Ah, o Paulo pensa isso”.
iG: Mas faria um enredo sobre o Neguinho?
PAULO BARROS: Faria! Eu o adoro, acho que é um artista maravilhoso. Até porque fui criado com eles, dentro da Beija-Flor. A gente fala essas coisas baseado em um folclore de carnaval. E passou, acabou. Não tem essa história.
iG: Você pensa suas comissões de frente como um desfile à parte?
PAULO BARROS: Não. A comissão de frente é o primeiro bloco da escola e se criou um mito sobre ela. E não fui eu quem criou. A comissão muda de conceito ao longo dos anos. A Rosa Magalhães (carnavalesca da Vila Isabel) foi a primeira a trazer esse conceito de espetáculo para a comissão de frente e isso foi seguido. Tanto que hoje todos os coreógrafos são profissionais de dança. Criou-se um segmento separado da escola de samba, coisa que eu também não concordo.
iG: Por quê?
PAULO BARROS: Sou o criador do espetáculo e assumo tudo. Não vou dizer para você que a figura do coreógrafo não é importante. É lógico que é fundamental para desenvolver aquele trabalho. Agora, vou largar de mão a criação porque tenho um profissional da comissão de frente para criar? Não. Quem cria sou eu. Nunca vou tirar o mérito deles, mas não tenha dúvida que o conceito tem que ser meu. A última palavra é minha. Tem carnavalesco hoje que não sabe o que é a sua comissão de frente. Vai saber depois porque o coreógrafo imagina, cria, e depois só apresenta.
Detalhe de um dos carros alegóricos da Unidos da Tijuca
iG: Como consegue manter o mistério da comissão de frente, por exemplo?
PAULO BARROS: Não vaza porque se vazar eu mato eles(risos). E eles matam os componentes. A gente tem uma cumplicidade. A minha mãe hoje não sabe o que é a comissão de frente. E nem vai saber. Ela pergunta, mas eu não respondo. Só vai saber lá no dia, na hora. Se pudesse não contaria nem para a própria comissão de frente, mas não posso.
iG: Sente-se o herdeiro do legado de Joãosinho Trinta?
PAULO BARROS: Me sinto um cara que faz alguma coisa em que acredita. Só isso. Acho que o legado do João é dele. Absorvi ensinamentos do João, do Viriato (Ferreira, 1930-1992), da Rosa, de todo mundo, só que misturei isso e conduzi para o que gosto de fazer. As pessoas têm mania de fazer esses paralelos, mas não me incomoda porque ser comparado ao João, para mim, é o máximo.
iG: Em recente entrevista, você se mostrou preocupado com a pista da Sapucaí, que estaria desnivelada. O presidente da Riotur, Antonio Pedro, disse que só você reclamou e que o problema é o carro que projetou.
PAULO BARROS: Eu quero passar num espaço que me dão no qual preciso que a pista seja boa para passar. Então tenho que ter um manual de pista que diga “se você quiser um carro fora desses padrões, não pode fazer porque não consegue passar”. Entendeu o que eu falei? O Antônio Pedro disse que só eu reclamei, então está bom para todo mundo. Eu criei um carro que, naquelas condições da pista, a minha criação não passa.
O enredo será “O Dia em que Toda a Realeza Desembarcou na Avenida para Coroar o Rei Luiz do Sertão”
iG: Então vai ter que mudar tudo?
PAULO BARROS: Ué, se eles falam que a pista é assim e vai continuar sendo assim eu vou, destruo o carro, não faço o carro.
iG: Vai ficar com um carro a menos?
PAULO BARROS: Não, mas vou ter que modificá-lo. Fiz um carro que precisa de uma pista plana, que seria o normal. Aí eles dizem que uma pista com uma inclinação de 42 centímetros é normal! E que ninguém reclamou.
(...)não me incomoda porque ser comparado ao João, para mim, é o máximo.”
iG: Então o jeito é aguardar para ver como vai ser na hora do desfile?
PAULO BARROS: Não, eu não sou maluco. Não vou comprometer o trabalho de uma escola inteira por causa de um carro alegórico. Se perceber que o carro não vai passar na íntegra vou modificá-lo. Consequentemente o que queria fazer não vai ser possível. Talvez eu tenha sido o único a reclamar porque talvez tenha sido o único atento a isso. Tanto que teve uma reunião e me prometeram que vão modificar a pista.
iG: E nada fizeram?
PAULO BARROS: O problema é que as pessoas querem se defender atacando os outros. Eu levantei uma bola: o meu carro não passa nesta pista porque a pista está inclinada. Ponto. “Ninguém reclamou, só ele, ele é o chato da história”. Não, não sou o chato da história. O problema não é meu. Sabe por que a pista está assim? Porque a pista não tem escoamento para o outro lado. Por isso que eles desnivelaram a pista. Então, quando chover, a água corre para um lado só. Errado! Tem que ter escoamento para os dois lados. “Ah, mas não tinha”. Faça então! Agora eu que sou o “reclamão”?
iG: Você tem um dos passes mais caros entre os carnavalescos. Conseguiu ficar rico?
PAULO BARROS: Não. Gostaria muito de ficar rico. Sou consumista até não poder mais. Por exemplo, não uso relógio e nem joia. Mas adoro ter um belo carro (Paulo tem um Mercedes-Benz Avantgarde C 200, modelo avaliado em R$ 160 mil), uma bela casa, viajar. Se pudesse só viajava de primeira classe. Adoro Disney, viro criança quando estou lá.
iG: Faria algo diferente na parada da Disney?
PAULO BARROS: É o conceito deles, o nosso é o nosso. Digo em relação ao conceito dos carros alegóricos que é simplesmente luz e mais nada. Vi esse ano que eles fazem umas projeções no castelo da Cinderela, muito legal, muito bonito, mas nada que tire o fôlego.