As duas escolas têm sambas-enredo com grandes chances de se tornarem antológicos. Veja clipe do samba com Martinho da Vila e Arlindo Cruz e leia crítica do CD

Poucas vezes no carnaval histórias que se repetem um ano após o outro são bem vindas. Mas há exceções que provocam suspiros de alívio no coração dos mais afoitos foliões. Pois Portela e Vila Isabel têm, pelo segundo ano consecutivo, os melhores sambas-enredos da safra.

Vila, com o enredo “A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – Água no feijão, que chegou mais um”, tem a melhor melodia da edição 2013. Incluindo aí o jogo de palavras “plantar/colher” no refrão principal do samba. A Portela vem com “Madureira - Onde o meu coração se deixou levar”. Além da escola de Madureira, apenas a União da Ilha não tem enredo patrocinado. Todas as outras dez escolas fizeram acordos comerciais com empresas e governos para escolherem seus enredos.

Isso causou casos, no mínimo, curiosos. A Mocidade vem com Rock in Rio. O Salgueiro cantará a fama, após fechar patrocínio de uma revista de celebridades. A Imperatriz vai cantar as tradições do estado do Pará e a Beija-Flor escolheu enredo sobre uma raça de cavalos. Que tal? Não é fácil, portanto, para os compositores das agremiações buscarem inspiração na hora de formar a letra que defenderá as cores de suas escolas. Todas elas apenas com letras burocráticas.

Capa do CD de sambas do carnaval 2013
Divulgação
Capa do CD de sambas do carnaval 2013

Refrão arrebatador

Na contramão do que se ouve no recém-lançado CD, a Portela tem um dos refrões mais fortes. “Abre a roda, chegou Madureira / A poeira já vai levantar / O batuque ginga ioiô / Ginga iaiá”.Mas, mesmo no grupo dos sambas patrocinados, há casos com boas soluções. A campeã Unidos da Tijuca, com uma homenagem à Alemanha, também apresenta uma boa arrancada em seus versos finais: “Metade do meu coração é Tijuca / A outra metade Tijuca também”. O festejado carnavalesco Paulo Barros prepara o enredo “Desceu num raio, é trovoada! O deus Thor pede passagem pra mostrar nessa viagem a Alemanha encantada”.

A Grande Rio se meteu em uma situação curiosa. É a primeira vez que uma escola entra na Avenida com um enredo já atrasado na história. Deveria ser um grito de alerta sobre a divisão dos royalties do petróleo. Apenas deveria. O enredo “Amo o Rio e vou à luta: Ouro negro sem disputa” perde a força devido à decisão já definida pela presidenta Dilma Rousseff há algumas semanas. O samba também não é dos melhores.

Se a Beija-Flor não faz feio com sua letra escolhida para o próximo carnaval, também não dá para dizer que está na mesma igualdade das obras apresentadas nesta última década em Nilópolis. A Ilha, com Vinicius de Moraes, está no mesmo patamar. Boa letra, apenas isso. Nada que será lembrado para além do carnaval.

A São Clemente optou por uma concha de retalhos de nomes de novelas e expressões da teledramaturgia para construir seu samba, uma ode aos dramas da TV Globo. O refrão do meio é empolgante, tem a cara da escola, sempre irreverente. Não é dos piores. Pode empolgar a Sapucaí. “Dance bem, dance mal, dance sem parar/ Roque quer sambar… Não é brinquedo não/ Quero ouro, muito dez, Inshalá...”.

A Mangueira, com "Cuiabá: Um Paraíso no Centro da América!", se saiu bem entre as agremiações patrocinadas. Tem uma letra que condiz com a garra da escola e deve continuar sacudindo as arquibancadas sem grande esforço. Missão difícil terá a estreante na elite carioca, a Inocentes de Belford Roxo, com uma homenagem forçada à Coreia do Sul, cuja letra não diz absolutamente nada.

No geral, Portela e Vila Isabel vão fazer mais uma vez a diferença quanto ao quesito samba-enredo. Se pudesse juntar estas duas obras-primas em seus versos finais, seria algo como: “É a Vila, chão de poesia, celeiro de bambas... Que Madureira é muito mais do que um lugar / É a capital de um sonho que me faz sambar”.


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