Com o maior patrocínio do grupo especial do Rio, 6 milhões de reais, a escola de Nilópolis usou o enredo esdrúxulo a seu favor

Um sambista rival, ao passear pela área de concentração da Beija-Flor, comentou, destilando maldade: “Pela quantidade de cavalos que vi, dava para encenar uns dez faroestes, cem carrosséis de parquinhos e mil páreos no Jockey Club”. 

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Em que pese a brincadeira, a escola de Nilópolis deve ser sempre olhada com respeito. No meio, costuma-se dizer que, para ser campeão, deve-se, primeiro, bater a Beija, que se estabeleceu com quase perfeita conjugação de tradição e modernidade. Depois de quebrar em 1976 a ciranda das quatro grandes – Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro – já conquistou 11 títulos, praticamente um a cada três anos. Além disso, tem o mesmo puxador, Neguinho da Beija-Flor, e o mesmo casal de mestre-sala e porta-bandeira, Claudinho e Selminha, há 37 anos.

Mesmo assim, para manter a opulenta concepção criada por Joãosinho Trinta, de alegorias gigantes e luxo para a plebe, teve de apelar para o patrocínio. O resultado é um enredo dos mais esdrúxulos da atual safra – o cavalo manga-larga marchador – mas que mereceu o maior patrocínio do ano: R$ 6 milhões.

Com esta grana, o coletivo de cinco carnavalescos – supervisionados com mão-de-ferro pelo diretor Laila – deitou e rolou na Marquês de Sapucaí com a mesma facilidade com que comprou penas de faisão para fantasias. Foi impressionante a partir da comissão de frente, que mostrou uma alegoria gigantesca representando o dragão de São Jorge.

A seguir, um chorrilho de carruagens, carroças, bondes e charretes, todas riquíssimas de acabamento e, nunca antes na história do Sambódromo, tão iluminadas.

A evolução, historicamente um dos pontos altos da escola, foi o ponto vulnerável. Não esteve tão compacta como de costume. Pior: um carro travou e abriu buracos entre alas, que certamente custarão pontinhos preciosos.

Com o samba-enredo, deu o que só raramente acontece: pequenininho na gravação do CD, cresceu na avenida, defendido pela garganta dos componentes (quase todos da comunidade de Nilópolis, tão fiéis que são comparados a xiitas).

Aí está: não há crime em enredo patrocinado, desde que ele funcione a favor da escola, e não apenas do patrocinador. Beija-Flor é candidata ao título.

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