Os desfiles de São Paulo e do Rio de Janeiro se tornaram conhecidos no mundo todo. Apesar da semelhança, ambos apresentam muitas diferenças

Quem vê a exuberância das escolas de samba passando pela avenida não imagina o longo trajeto que as comunidades percorreram para chegar até ocupar o horário nobre da televisão brasileira. Apesar de o Brasil ter diferentes manifestações culturais do carnaval em toda a sua extensão territorial, a festa paulista e carioca ganham um maior destaque nesta época por conta das suas competições que se popularizaram pelo país. Segundo o historiador Bruno Baronetti, que dedicou a sua carreira para o estudo das manifestações carnavalescas, “o modelo carioca, das escolas de samba, foi o primeiro modelo de concurso de carnaval que surge e se populariza”.

No carnaval de 2016, a Estação Primeira de Mangueira se consagrou como campeã na avenida
Reprodução
No carnaval de 2016, a Estação Primeira de Mangueira se consagrou como campeã na avenida


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Apesar de comparados com frequência, o carnaval do Rio de Janeiro e o de São Paulo possuem origens e levadas rítmicas diferentes. As escolas de samba se consolidaram na terra da garoa somente em 1968 com a oficialização do carnaval em São Paulo, quando a prefeitura passou a investir nas escolas de samba. “O carnaval de rua de São Paulo tem mais ou menos 100 anos e  tem dois tipos de carnavais até a década de 1950: um carnaval do burguês branco e um popular negro dos cordões”, revela Baronetti. “O ‘Grupo Carnavalesco Bala Funda’ foi o primeiro cordão da cidade fundado em 1914 e a partir daí ele começa a circular no bairro da Barra Funda, a expandir para o centro da cidade e começa a surgir outros cordões”, completa o historiador.

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Uma das maiores escolas de samba da cidade de São Paulo, a Vai-Vai, também era um dos cordões que animavam a capital paulista “Era nesses cordões que a população pobre negra saia para brincar o Carnaval até a década de 60”, explica Baronetti. Os cordões, como analisa o historiador, são como os “avôs” das atuais escolas de samba. “Não tinha normalmente um enredo, mas alguns cordões tinham temas, outros saiam todo mundo com as mesmas fantasias e a parte instrumental tinha inclusive instrumentos de sopro”, exemplifica. Entretanto, com a entrada da década de 1960, eles foram perdendo força, dando origem às escolas de samba da capital paulista. Já no Rio de Janeiro, as clássicas escolas de samba surgiram dos chamados ranchos carnavalescos, que apesar de se popularizarem na década de 1920, conseguiram existir até o final do século XX dividindo espaço com o atual modelo de carnaval.

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Primos de samba

O modelo de desfile de uma escola de samba no Anhembi, entretanto, é o mesmo que o originado na Sapucaí. Apesar de seguir modelos semelhantes, os ritmos que comandam os sambas-enredos durante o desfile são diferentes. “No Rio de Janeiro a batida surge numa escola de samba chamada Estácio de Sá. Há uma presença maior de tamborim, instrumento criado lá, uma batida mais leve, mais ritmada, enquanto em São Paulo há uma batida um pouco mais pesada pela presença de instrumentos pesados”, revela Baronetti.

Desfile da Gaviões da Fiel em 2015
Robson Fernandjes/LIGASP/Fotos Públicas
Desfile da Gaviões da Fiel em 2015

Além disso, um fenômeno peculiar acontece em São Paulo que o diferencia da capital carioca, que é a presença de torcidas organizadas no carnaval. “É um fenômeno que se populariza na década de 1980”, revela. “Das 14 escolas de samba do grupo especial, três são ligadas a torcidas, ganhando títulos inclusive, como a Gaviões da Fiel”, exemplifica. Para o historiador, esses modelos de escolas de samba são positivas para as torcidas pois assim elas livram-se do estigma de violência e criam novas atividades que ajudam a financiar o futebol.

“As regras para entrar novas escolas de samba em São Paulo era mais flexível que no Rio de Janeiro e na capital carioca essa identidade de morros étnica de, bairro de pertencimento aos bairros que as escolas de samba trazem eram muito fortes. E é neste contexto que essas torcidas organizadas acabam se inserido”, analisa Baronetti.

O carnaval nos dias de hoje

Mesmo cultivando tradições seculares, como a referência aos ancestrais na entrada de uma escola de samba em um pavilhão, além das oferendas aos orixás das religiões afrodescendentes, uma das maiores festas brasileiras tem mudado bastante nos últimos anos. “O carnaval não deixa de pertencer às comunidades pobres periféricas, mas passou por longas transformações de natureza estética, musicais, politicas e institucionais”, revela o historiador.

As festas na rua retomam as origens do carnaval
Tânia Rego/Agência Brasil/Fotos Públicas
As festas na rua retomam as origens do carnaval

“Uma prova dessa importância do carnaval da cidade é a construção do sambódromo. Infelizmente, durante o ano o espaço fica inutilizado enquanto poderia ter outras funções”, revela Baronetti. Para o historiador, o espaço em São Paulo atualmente é um local de disputa devido às intenções do governo municipal em privatizá-lo. “Muitas das escolas de samba transformaram esses espaços e se tornam porta- voz de bairros da cidade: cobram do poder público uma série de coisas, como mais escolas, mais creches, mais saneamento básico. Esse confinamento do carnaval no espaço do Anhembi faz com que as pessoas que não dispõem de meio não participem do seu próprio evento”, critica.

Por outro lado, o uso do espaço público está retomando as origens do carnaval e popularizando as festas de carnaval. “Existem seis divisões das escolas de samba: o grupo especial, de acesso, e os grupos um, dois, três e quatro. Os primeiros desfilam no Anhembi e os outros desfilam nos bairros da cidade. As pessoas vão gratuitamente assistir e se cobra menos das fantasias, o que levam os sambistas de verdade estarem inseridos nessas escolas menores enquanto os desfiles são ocupados por turistas e pessoas”, revela Baronetti. “O Grupo Especial, que virou um espetáculo midiático, não está ligado exatamente ao samba. O samba é um dos elementos que compõe o desfile da escola de samba, que é uma grande ópera em que é narrada uma história”, completa.

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