Comentarista da Globo fala sobre o processo para entrar no ar ao vivo durante os desfiles das escolas em São Paulo


Paula Lima  não viveu muitos carnavais. Ao menos daqueles de ir para a avenida e representar alguma escola.  A cantora desfilou em 2008 pela Mangueira, em 2012 pela Vai-Vai e fez sua terceira entrada no sambódromo este ano. Desta vez, pela Viradouro.

Assim como nas vezes anteriores, Paula teve um motivo especial para aceitar o convite. A Viradouro fez uma homenagem à cultura negra e Paula saiu no abre-alas ao lado da Deise Nunes, que foi a primeira e única Miss Brasil negra.

Nos anos anteriores, Paula foi convidada para ser a rainha do quilombo ao lado Milton Nascimento , e para ser uma das representantes do tema Mulheres que Brilharam em um carro ao lado de Elza Soares  e Marisa Orth .

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Mas a relação de Paula com o carnaval vem de antes de tudo isso. Embora não tenha sido muito ligada à festividade na infância, a cantora é casada há quase dez anos com Ronaldo Bonfim , que além de administrador de empresas, foi durante 16 anos integrante da comissão de frente da Gaviões da Fiel.

Não estou lá curtindo, estou trabalhando de verdade. Isso é muito sério."

TV

Outra forte relação de Paula com o carnaval – e também o que fez a cantora mudar seu olhar sobre a festividade – foi o fato de, em 2013, ela ter sido convidada para ser colunista e comentarista de carnaval do SPTV. "Foi uma coisa que deu tão certo. Foi meu primeiro contato real com barracão, com comunidades, com os ensaios todos, entender o que é o carnaval. Porque carnaval, às vezes, parece que são várias alas, comissão, um carro, outro carro e um bando de gente cantando a música”, afirmou Paula, que começou a estudar todo o significado do que é apresentado na avenida pelas escolas para encarar o desafio.

“A comissão apresentando a escola, o abre alas resumindo um pouco do primeiro setor, como o carnavalesco pensa naquele enredo... Essa coisa religiosa... porque escola vira religião. É uma coisa muito forte. E isso tudo fui entender de verdade a partir do momento que tive esse convite. Antes era uma coisa distante. Achava bonito, gostava, mas não fazia parte da minha vida como agora”, explicou.

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Em conversa com o iG, Paula explicou que busca passar para o espectador uma informação bem menos técnica e muito mais humana. “Quando vou fazer os comentários, penso em quem está assistindo. Já fui uma espectadora. Tem momentos que, para quem está na avenida, a curtição é uma. Para quem está em casa, é muito mais frio. Então procuro saber quem é a tia que costura, quem é a pessoa mais velha, como os carros são feitos, quantos meses ensaiaram a comissão...", explica.

Para isso, a cantora passa horas estudando e ligando para representantes das escolas em busca de informações e curiosidades. "Tenho um lado libriana que é meio papo cabeça e perfeccionista. Então não estou dormindo por conta do carnaval. Quero realmente dar a atenção devida", afirmou Paula dias antes de integrar, por mais um ano, o time de comentaristas nos desfiles das escolas de samba de São Paulo para a Globo. “Esse ano senti muita falta do meu trabalho no SPTV, que era um momento que eu estava lá com as escolas e podia falar coisas que eles só falam pra mim”, lamentou Paula.

Esse ano, senti muita falta do meu trabalho no SPTV"

A cantora admitiu também que, durante a trasmissão, o que mais teme é passar alguma informação errada para o telespectador. "Por isso que gosto de ir muito preparada. É um trabalho. Eu penso assim, a Monalisa (Perrone) também pensa assim, o Celso (Viáfora)... Mas em geral, as pessoas não pensam assim."

A cantora ainda revelou que essa entrada na TV e a participação do programa "Ídolos" fez nascer dentro dela uma vontade de ter um programa próprio. “Não tinha esse desejo antes, mas acho que faz uns dois anos que é uma coisa que eu penso. Acho que vai chegar uma hora que vai rolar. Do que, como e onde vai ser, não faço ideia. Porque não chega a ser um projeto. É uma coisa que eu curto.”

Bastidores

Apesar de considerar um projeto trabalhoso, Paula não deixa de se emocionar durante a transmissão do carnaval. Mesmo ao vivo, chega a sambar quando a bateria passa e se comove com a ala das baianas.

E, para aqueles que acreditam que trabalhar no carnaval é pura folia, Paula faz questão de ressaltar: “Uma coisa de bastidor é o árduo processo de pesquisa. As pessoas acham que é só o glamour. Esses dias, por exemplo, eu estava morta, e aí veio uma doida e falou: ‘eu que queria ter essa vida fácil aí’. Falei: ‘querida, estou indo dormir as três da manhã’. É uma parte que não tem glamour e é árdua. Não estou lá curtindo, estou trabalhando de verdade. Isso é muito sério”, dispara Paula. Ainda assim, a cantora diz que o posto de comentarista é sua preferência no carnaval.

Até porque, se não estivesse trabalhando, Paula mostra que não seria aquela foliã que se joga na festa. “Paula foliã era praia, na areia. E a noite, sem preocupação nenhuma, churrasco e assistir às escolas. Nunca fui de baile, máscara, bloco. Nem me chama. Não vou! Não é pra mim”, contou a cantora, relembrando seu passado como foliã.

Em contrapartida, ela conta que amou participar do carnaval de Salvador. “Passei um ano em cima do trio elétrico, cantando com Daniela Mercury  durante seis horas. E, outro, com Carlinhos Brown , no camarote andante. Foram meus dois carnavais na Bahia, sensacionais. Esse, sempre que me chamarem eu vou. Gosto, bastante”.

O carnaval, às vezes, parece que são várias alas, comissão, um carro, outro carro e um bando de gente cantando a música"

O que pode e o que não pode no carnaval

Para Paula Lima, a ousadia e criatividade na hora de escolher as fantasias é algo que não pode faltar no carnaval. “Acho divertido esse outro lado. Um dia, ainda vou sair bem ridícula assim, bem maluca, porque é carnaval. É justamente o lado da brincadeira, como começou. Isso é muito legal”, afirmou a cantora.

Na ponta oposta, Paula considera um absurdo a sujeira deixada pelas ruas durante a folia. “Na Vila Madalena, por exemplo, que o cara paga o metro quadrado bem caro, e vem o povo sujar e te atormentar. E também sou muito neurótica com lance de barulho. Se tem um lugar para passar, passa lá. Não vem me atormentar”, disparou Paula, relembrando ainda as férias que passou na Bahia e acordava todo dia ao som do hit Lepo-Lepo. Em busca do silêncio, a cantora pedia para trocar de quarto no hotel. “Amo Márcio Victor, Psirico, meu amigo. Mas falei pra ele: ‘passei o carnaval com você e não foi legal’, disparou a cantora.

Tema da Viradouro

A Viradouro trouxe para a avenida o enredo “Nas veias do Brasil, é a Viradouro em um dia de graça!”, homenageando os negros. Como representante da escola este ano, Paula aproveitou o tema para falar sobre racismo. A cantora afirmou que já sofreu bastante preconceito ao longo de sua vida, mas diz que não gosta de ficar levantando bandeira e nem se fazendo de vítima. “Negro que fala que não sofreu preconceito, estava aonde? Não estava no Brasil”, afirmou.

Nunca fui de baile de carnaval, máscara, bloco. Nem me chama. Não vou! Não é pra mim."

“Hoje, para mim, é muito mais fácil, porque chego nos lugares e as pessoas já me conhecem. Mas já entrei em loja que a pessoa olhou e falou: ‘ele não vai poder comprar’. Ou então vira e fala: ‘então, tem esse daqui, mas a promoção está ali’. Sempre estudei em escola particular. Na minha, eram 800 alunos e eu era a única negra. Nunca tive muito problema. Mas teve um menino que mexeu comigo, e fui lá e contei para a tia Elvessia que ele estava me chamando de vaca preta e não queria dançar comigo na festa junina”, relembrou Paula, sem carregar mágoas.

Paula ainda revelou ser a favor de cotas, embora tenha ingressado na faculdade de Direito sem usar o sistema. “Eu não era (a favor). Porque fiz Direito e entrei sem cota. Mas acho que muita gente não teve a oportunidade que tive, de estar em um bom colégio e tudo mais. Acho que é uma forma de mudar. Desde que a pessoa se esforce”.

Paula Lima
André Giorgi
Paula Lima


Agradecimentos: 

O Pasquim: Bar e Prosa - Rua Aspicuelta, 524 - Vila Madalena
Aroldo Campos (look)


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