#SalaSocial Grupos usam as mídias sociais para levantar bandeiras contra manifestações tradicionais da folia, acusadas de racistas, sexistas e discriminatórias.

BBC

São várias as razões pelas quais o carnaval brasileiro é conhecido mundo afora - o enfoque politicamente correto certamente não está entre elas.

Mas neste ano, a folia nem começou oficialmente e já coleciona manifestações inéditas que questionam tradições vistas por muita gente como sinais de machismo, homofobia e preconceito.

Em comum, as iniciativas usam fóruns online e redes sociais para aprofundar as discussões sobre estereótipos e trazer visibilidade a seus questionamentos.

A novidade está longe de ser unanimidade. O ataque a marchinhas como O seu cabelo não nega, mulata é classificado pelos céticos de "policiamento chato". Os ativistas que levantam as bandeiras são rotulados de "patrulha do politicamente correto".

A atriz recifense Dandara de Morais, uma das defensoras do fim de sátiras envolvendo a população afro-brasileira no carnaval, contra-argumenta.

"Estas piadas tiram onda, se apropriam de traços de uma cultura alheia com deboche. Quanto mais se faz isso, mesmo sem intenção, mais se estimula o preconceito", diz.

Do cancelamento de uma propaganda de cerveja considerada ofensiva à mobilização online contra estereótipos ligados à cultura negra, confira cinco temas que já esquentaram as discussões neste Carnaval antes mesmo de esquentarem os tamborins.

1. Sexismo alcoólico
Outdoors de uma marca de cerveja que traziam frases como "Topo antes de saber a pergunta" ou "Esqueci o 'não' em casa" sofreram intervenções de um grupo feminista e foram oficialmente tirados de circulação.

Idealizada por duas amigas, a ação consistiu em completar a frase "Esqueci o não em casa" com "... E trouxe o nunca". As imagens foram postadas no Facebook e curtidas mais de 20 mil vezes em menos de 24 horas.

A repercussão foi tão grande que a Ambev, gigante do ramo de bebidas e responsável pela campanha, voltou atrás e prometeu retirar todos os cartazes das ruas.

2. Marchinhas 'gay friendly'
"Olha a cabeleira do Zezé / Será que ele é? / Será que ele é? / Bicha!". "Maria Sapatão, sapatão, sapatão / De dia é Maria / De noite é João!".

Frequentes no Carnaval, as sátiras a gays, lésbicas, travestis e transexuais vêm enfrentando repercussão negativa nas redes sociais. As críticas mais populares propõem novas letras a músicas consideradas ofensivas por esta parcela da população.

Retuitada quase 2 mil vezes, a usuária Giovanna‏ ( @myfrenchfries) fez uma das releituras mais populares: "Maria sapatão, sapatão, de dia é Maria, de noite é Maria também porque identidade de gênero não tem nada a ver com orientação sexual".

Ela se refere a uma discussão frequente entre a população LGBT: ao contrário do que sugere a marchinha, a orientação sexual (ter como parceiros homens ou mulheres) não determina a identidade de gênero (perceber-se como do sexo masculino ou feminino).

3. 'Negro não é fantasia'
O bloco mineiro Doméstica de Luxo, que no último fim de semana reuniu mais de 6 mil pessoas em Juiz de Fora, pos a lenha na fogueira do debate sobre manifestações consideradas racistas no carnaval.

Formado apenas por homens com perucas "black power", batom vermelho para engrossar os lábios e tinta preta no rosto, o bloco, que completa 57 anos, foi alvo da ira da militância negra, que diz não achar a menor graça nas fantasias.

À BBC Brasil, os organizadores disseram se tratar de uma "homenagem singela às empregadas".

"Aquela não é a imagem criada pela própria mulher negra. É criada pela elite branca, com exageros nas formas e curvas. Não dá para dizer que é inofensivo, que é diversão. É deboche", disse à BBC Brasil a escritora e militante Jarid Arraes.

Tal qual a "nega maluca", o grupo pede o fim de marchinhas como O Teu Cabelo Não Nega e clichês como "mulata tipo exportação".

4. 'Beijo forçado deve ser proibido?'
"O beijo forçado deve ser proibido?", indagava a enquete online do site G1 Bahia.

A pergunta foi compartilhada mais de 8 mil vezes, virou um dos tópicos mais comentados no Twitter e gerou uma onda de comentários críticos no Facebook. Entre os mais reproduzidos está o tuíte de Michael Renzetti ( @mikerenzetti): "Claro que não, inclusive vários outros crimes deviam ser permitidos, é #festa".

Segundo pesquisa de dezembro do Instituto Data Popular, 96% dos jovens acham que existe machismo no Brasil. A preocupação levou a ONU a lançar nesta semana a campanha "Neste carnaval, perca a vergonha, mas não perca o respeito".

Segundo as Nações Unidas, o órgão quer chamar atenção para "a importância de manter a festa livre de assédio e violência".

5. Racionamento carnavalesco
A falta d'água, que já atinge todo o sudeste brasileiro, virou fonte de polêmica no carnaval: faz sentido usar caminhões pipa para refrescar os foliões enquanto falta água para tomar banho e cozinhar em bairros de periferia?

Enquanto blocos cariocas como o Barbas e o Escravos da Mauá decidiram manter a tradição, as baterias do GB, do Imprensa Que Eu Gamo e do Imaginou Agora Amassa decidiram cancelar o refresco, alegando desperdício.

"Podem até passar calor, mas ninguém vai morrer por causa disso", disse à BBC no início do mês Inês Garçoni, organizadora do Imprensa Que Eu Gamo, que reuniu mais de 15 mil pessoas no pré-carnaval no bairro de Laranjeiras.

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