Artistas sertanejos entram na festa baiana e conquistam grande espaço no mercado antes dominado pelos artistas locais


Das dez músicas mais tocadas nas rádios do Brasil em 2014, 8,5 são sertanejas. O 0,5 fica por conta da participação da dupla Jorge e Mateus na música “Guerra Fria” do grupo de pagode Sorriso Maroto, que ocupou a 9ª posição. Já a décima colocação ficou com “Happy”, de Pharrell Williams . Os dados são da empresa Crowley, que faz a medição das faixas mais tocadas em todo o Brasil.

E esse sucesso sertanejo nas rádios reflete também nas ruas do País. Tanto é que, além das baladas e festivais já consagrados, o ritmo tem invadido o quintal do axé e ocupado um palco antes dominado pelos artistas do ritmo baiano.

Para Leo Goes , diretor do Pirraça, bloco que cuida do camarote Villa Mix, espaço voltado para a música sertaneja no circuito Barra-Ondina, isso não representa a queda do axé, como muito tem se falado, mas, sim, o crescimento do sertanejo em terras baianas. “O sertanejo chegou um pouco tarde à Bahia. O ritmo veio para completar porque a força do sertanejo é muito forte. Tem um leque de tantas opções que você até se perde. A cada ano vai crescendo no carnaval baiano. E tem muito mais a crescer”, aposta Leo, que trabalha há mais de vinte anos no carnaval baiano.

“Mas não acho que o axé esteja em baixa. O ritmo está passando por uma reformulação, como todos os ritmos. Reinou durante muitos anos e passa por reestruturação. Mas continua forte. Essa mistura é uma necessidade, o público pede a mistura de ritmos. Como o arrocha, por exemplo, que é uma mistura com o sertanejo e que vem invadindo Salvador”, destaca Leo.

Mistura de ritmos

Com as bem-sucedidas músicas sertanejas, os axezeiros se adaptaram e incluíram muitos hits em seu repertório, a exemplo do que aconteceu há alguns anos com o estouro de “Ai, se eu te pego”. Na época, muitos ícones do axé, incluindo Ivete Sangalo  e Chiclete com Banana, levaram o sucesso de Michel Teló  para cima do trio.

A canção não é a única a pular dos palcos sertanejos para os trios elétricos. Entre as mais recentes estão Leo Santana , interpretando “Mozão”, sucesso de Lucas Lucco ; Ivete Sangalo, cantando “Cds e Livros”, composta por Sorocaba e interpretada por Thaeme e Thiago ; e “Ressentimento”, sucesso de Jads e Jadson e que acaba de ser regravada por Wesley Safadão e Garota Safada.

Para agradar o público do axé, o sertanejo também faz suas adaptações. “Aceleramos um pouco o bit das músicas. Chamo de ‘sertanejo elétrico’. Inserimos alguns clássicos do axé também, além de sucessos do momento. Aquilo que está na boca do povo é o que ele quer ouvir no carnaval”, explica Erikka , a cantora sertaneja responsável pela faixa “Cara de Rica”, que compõe a trilha da novela “Império”. Em sua agenda, Erikka tem seis shows marcados para o período de carnaval, sendo quatro deles em Salvador, no circuito Barra-Ondina, o mais famoso da cidade baiana.

Para a cantora, que tem Ivete como grande ídolo do axé, essa aceitação do sertanejo em Salvador se deu com a entrada da dupla Jorge e Mateus no Bloco Pirraça, em 2010. “Eles permanecem fazendo o maior sucesso. Tanto que, esse ano, estão lançando o camarote Villa Mix com uma megaestrutura”.

O espaço VIP sertanejo, que também contará com música eletrônica, aliás, se iniciou com um espaço no Camarote Salvador, um dos mais badalados no circuito Barra-Ondina. “O ritmo sertanejo vem crescendo muito nos últimos anos, principalmente na Bahia. O Bloco Pirraça, com Jorge e Mateus é muito respeitado e já queríamos fazer algo mais. Como já tem o festival (Villa Mix) no Brasil, conseguimos o espaço e resolvemos concretizar a ideia”, contou Leo, que ainda destacou que o Villa Mix não é o único camarote a trazer o ritmo para seus espaços. “O Lucas Lucco também vai tocar em dois camarotes”, destaca. Em um deles, também terá a presença de Thaeme e Thiago.

Para Luan Santana, que já cantou com Ivete Sangalo em cima do trio, esse crescimento do sertanejo na Bahia se deve também a outro grande eventos que, assim, como o carnaval, era dominado por artistas do axé. "Acredito que desde quando os blocos desse gênero começaram a surgir, assim como no Festival de Verão, em Salvador, em que o sertanejo tem uma grande influência. As micaretas pela Bahia também, além dos festejos juninos que deixaram de ter só forró", analisou o cantor. Luan, aliás, vai gravar uma versão de "Cartório" com Claudia Leitte. A música promete ser um dos hits do carnaval. 

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Carnaval em outras cidades

Além da folia baiana, os sertanejos farão parte do carnaval de muitos brasileiros em outras regiões do Brasil. Munhoz e Mariano , por exemplo, têm shows agendados em Minas Gerais e São Paulo. Luan Santana  volta das férias e se apresenta no Rio, Paraná e Santa Catarina. Gusttavo Lima  faz três shows em Minas Gerias e, Gabriel Gava , também toca para mineiros e goianos.

Grandes carnavais de outras cidades também estão repletos de sertanejos. A festa de Votuporanga, por exemplo, que conseguiu tirar Ivete Sangalo de um dos dias da folia baiana , terá Cristiano Araújo , Fiduma e Jeca e Seu Moço como representantes.

Em outra festa, a que acontece em Santa Fé do Sul, o axé é minoria quase vencida, sendo representado apenas por Alexandre Peixe nos cinco dias de festival. Os sertanejos Henrique e Juliano , Fernando e Sorocaba e Munhoz e Mariano dividem os outros dias de folia com artistas de pagode e DJs.

"O sertanejo é hoje um dos gêneros mais fortes do mundo inteiro, o axé ainda se faz muito presente. Mas acredito que o sertanejo tem uma força incrível no País inteiro", apontou Luan Santana.

Abadás

Seja com sertanejo ou axé, a venda dos abadás para o carnaval de Salvador segue a todo o vapor. Embora muito se fale que os pacotes estão encalhando, Jaqueline Lessa , gerente de produção da Central do Carnaval, empresa responsável pela venda para 31 blocos e 12 camarotes em Salvador, garante que os kits estão saindo normalmente.

“Até dezembro estava com venda 20% menor do que o ano anterior. Mas quando virou o ano, começou o verão, as festas, os ensaios, a gente viu que a economia se estabilizou e já recuperou o ano passado”, afirmou ela, que espera bater a meta de vendas de 160 mil unidades de abadás e camarotes de 2014.

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