Dois dos maiores blocos da cidade debateram assunto mas "calor falou mais alto"; outros cancelaram uso

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Em meio à crise hídrica e os temores de racionamento, ao menos dois dos principais blocos do carnaval de rua do Rio de Janeiro decidiram manter carros-pipa em seus desfiles para refrescar quem for cair na folia. Tanto o Barbas, fundado em 1984, quanto o Escravos da Mauá, que saiu pela primeira vez em 1992, optaram por manter a tradição, enquanto blocos como GB, Imprensa Que Eu Gamo e Imaginou Agora Amassa anunciaram o cancelamento do "refresco" em função da seca.

Carro-pipa refresca foliões
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Carro-pipa refresca foliões

Segundo os organizadores, um único carro-pipa para um desfile com mais de 20 mil pessoas não representa desperdício. Além disso, eles citam questões de saúde, como quedas de pressão e desmaios sob o calor carioca de fevereiro.

"Houve uma conversa, mas pesou bastante a nossa tradição, que já é bem antiga, e uma conta que nos fez perceber que não há exagero. Usamos um carro-pipa com 20 mil litros. Dividindo pelos 20 mil foliões, temos um litro por pessoa. Tem anos que até sobra, nem usamos tudo", diz Nei Barbosa, um dos fundadores do Barbas.

Batizado com o nome de um bar que nos anos 1980 reunia músicos, jornalistas, artistas e exilados que retornavam ao Rio após a reabertura política, o Barbas refresca seus foliões com jatos d’água desde o primeiro desfile pelas ruas do bairro de Botafogo, há 31 anos.

Objetivos conflitantes

Ricardo Sarmento, um dos fundadores do bloco Escravos da Mauá, que sai na região portuária do Rio no horário do meio-dia, diz que houve um entendimento de que seria "politicamente correto" cancelar o carro-pipa, mas o calor falou mais alto.

Uso de carro-pipa por blocos provoca debate no Rio
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Uso de carro-pipa por blocos provoca debate no Rio

"Consultamos quase 50 pessoas próximas à organização do bloco. Fizemos uma reflexão e percebemos que seria educativo cancelar, seria pedagógico dar esse recado para as pessoas economizarem, mas ao meio-dia, com o sol a pino, temos que manter. Tomamos a decisão e vamos arcar com ela", indica.

Sarmento diz que os objetivos são "conflitantes", e que "preservar a saúde" dos milhares de seguidores do bloco foi mais importante.

Consultada pela BBC Brasil, a Riotur, que media a comunicação entre o governo do Rio e as agremiações, diz não ter ingerência sobre a organização dos blocos e que nenhuma agência do governo proibiu o uso de carros-pipa ou recomendou que fossem cancelados. Em nota, o órgão diz que anualmente reforça a estrutura de banheiros químicos e pede que os foliões não joguem lixo nas ruas.

Já a Comlurb, responsável pela limpeza urbana após a passagem dos blocos, diz que 100% da água utilizada no carnaval é de reuso.

"A Comlurb tem um consumo mensal estimado de cerca de 11.500.000 (onze milhões e quinhentos mil) litros de água de reuso por mês, transportados por carros-pipa. São 35 carros-pipas, com capacidade para 7 mil litros. A companhia utiliza 100% dessa água de reuso durante todo o ano para limpeza das ruas, onde há acúmulo de urina após eventos como o carnaval e o réveillon", acrescenta a nota.

Bom senso e autonomia

Inês Garçoni, uma das organizadoras do bloco Imprensa Que Eu Gamo, que desfilou no último fim de semana no bairro de Laranjeiras reunindo mais de 15 mil pessoas, diz que o grupo não precisou debater muito para decidir cancelar o carro-pipa.

"Ajuda muito, claro. Mas o bloco tem 20 anos, e só temos o carro-pipa há uns quatro ou cinco no máximo. Não tinha antes, e esse ano não vai ter. Podem até passar calor, mas ninguém vai morrer por causa disso", conta.

Garçoni diz que o Imprensa temeu ser alvo de críticas. "Acho que poderíamos ter sido mal interpretados, mas não foi por isso que cancelamos. Foi uma questão de bom senso mesmo. Agora, cada um faz como acha melhor. Não vamos criticar".

Para Rita Fernandes, presidente da Sebastiana, associação que reúne os 12 principais blocos da Zona Sul, Centro e Santa Teresa, cada agremiação tem total liberdade para decidir.

"Cada bloco é soberano para fazer sua própria decisão. Para o Barbas, por exemplo, era uma questão de tradição. É a marca registrada deles e avaliaram que não se tratava de desperdício. Desfilar sob o sol a pino também é ingrato. Mas há os que optaram por cancelar, porque julgaram melhor assim", diz. 

"Resta saber se as águas vão rolar", conclui Fernandes, em tom bem-humorado.

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