Tema de desfile que custou R$ 15 milhões, segundo ele mesmo revelou ao iG, ex-diretor da Globo rebateu críticas sobre escolha de seu nome ser oportunista e garante que não colocou a mão no bolso: "Como homenageado, não posso participar dando verba. Mas posso pedir"

Boni no barracão da Beija-Flor
Ricardo Ramos
Boni no barracão da Beija-Flor

Já na entrada do barracão da Beija-Flor, na Cidade do Samba, no Rio, se vê a empolgação da escola de Nilópolis com o homenageado pelo enredo deste ano. O título carnavalesco de Boni, o “Astro Iluminado da Comunicação Brasileira”, está reproduzido em cartazes e camisetas.

Mas não é só em slogans unidimensionais que Boni está presente nos ensaios. A menos de um mês para a folia na Sapucaí, a comunidade trabalha pesado para não deixar escapar nenhum detalhe. Boni passa por ali, na dele, toda semana. Ele brinca que é o homem que leva a azeitona para a empada que a Beija-Flor produz. Mas a gente constatou que é bem mais do que isso.

O iG acompanhou uma visita de Boni à escola. Assim que pisou no barracão, parou na frente de um rapaz que ornamentava uma estátua de carro alegórico. “Gostou, seu Boni?”, perguntou o artesão. “Está tudo muito bonito, estou impressionado. Muda demais a cada semana”, aprovou o empresário. No alto dos seus 78 anos, com paixão pulsante por carnaval no peito - e samba no pé -, Boni acatou a intimação do patrono da Beija-Flor, Anísio Abraão , para contar na avenida a sua história a partir da história da televisão.

Envolvido que está com o desfile, circula tomando nota de ideias e sugestões. Na hora do nosso papo, me convida para subir à sala da diretoria, pede um café e uma água e começa a falar. É eloquente, não foge de pergunta alguma, rebate as críticas de que teria sido oportunismo fazer um enredo em sua homenagem, declara o custo total do desfile deste ano, mais que o dobro do normal. “De R$ 15 milhões a R$ 16 milhões”, revela. O motivo? São vários, mas o principal é a pesada tecnologia que será usada em cena e a distribuição de fantasias para as pessoas da comunidade que não podem pagar.

Eu tenho samba no pé, só não tenho samba nos pulmões. Sambo direito, mas só um pouquinho. Senão tem que chamar a ambulância

O "astro iluminado" deve desfilar no meio da bateria, vestido de Charles Chaplin como os outros ritmistas. Ou quem sabe no último carro, o carro da "TV Beija-Flor", como cameraman. Seja como for, já garantiu que vai sambar. “Tenho samba no pé, só não tenho samba nos pulmões. Se é para dar uma sambadinha, sambo direito. Mas só um pouquinho, senão tem que chamar a ambulância (risos)”. Confira o papo na íntegra:

iG: Como começou sua história com o carnaval?

Boni: Em 1963, quando eu era diretor artístico da TV Rio e fui acompanhar a transmissão do carnaval. Quando vi aquilo de perto, levei um susto. É tão grande, tão emocionante, uma concentração de forças, uma manifestação de energia que contamina a gente. Talvez até uma coisa mística, parece que você está vivendo uma coisa além de você mesmo. Em 1967, já na Globo, percebi que no final do ano os figurinistas, os cenógrafos, desapareciam todos. Ficava lá procurando alguém para dar ordens e não tinha ninguém. Eu, paulista, não tinha estabelecido essa relação com o carnaval. Então me explicaram que eles eram carnavalescos, que o trabalho na empresa estava sendo feito, mas que estavam se dedicando também ao carnaval. Chamei o Arlindo Rodrigues, meu cenógrafo, para parabenizá-lo pela qualidade do cenário de uma novela que estava estreando, mas disse que a gente precisava discutir aquilo, que eu não concordava com essa divisão e ia lançar um comunicado proibindo o pessoal de fazer carnaval no ano seguinte. Ou era televisão ou carnaval.

iG: E o que o Arlindo achou dessa decisão?

Boni: Bom, ele me levou para a Mocidade, me levou ao barracão da escola, acabei participando do desfile… Quando terminou o carnaval, eu disse: “Pô, Arlindo, se você quiser sair do carnaval, pode sair. Eu é que não saio mais" (risos). Daí para diante, me tornei mais um apaixonado pelo carnaval.

Boni no barracão da Beija-Flor
Ricardo Ramos
Boni no barracão da Beija-Flor

iG: O que o Carnaval tem de dramático, de televisivo, de cinematográfico?

Boni:  As pessoas que não conhecem as entranhas da festa imaginam que é um espetáculo turístico. Não é. É um espetáculo cultural. Cada escola, além dos seus 3 mil, 4 mil componentes, emprega um contingente inacreditável de artesãos e artistas. É uma pesquisa contínua, os caras estão trabalhando e sabem o que estão fazendo.

iG: Quanto vai custar o desfile da Beija-Flor este ano?

Boni: De R$ 15 milhões a R$ 16 milhões. É o dobro do que têm custado os anteriores, porque este ano a Beija-Flor está usando tecnologia eletrônica. A escola recebe, entre ingressos e subvenção, R$ 7 milhões. E vai gastar R$ 15 milhões. O Poder Público tinha que enxergar isso, porque esse evento magnífico custa dinheiro, muito dinheiro, e é impossível fazer carnaval com dinheiro de ingresso, com dinheiro da subvenção. O carnaval precisa viver sem sacrifício. Se o patrono não estiver presente não existe festa. A gente passa o “pires” aqui e eu também tive que ajudar. 

As pessoas que não conhecem as entranhas da festa imaginam que é um espetáculo turístico. Não é. É um espetáculo cultural.

iG: E quando você diz que teve que ajudar, foi financeiramente?

Boni: Não, eu teria de receber comissão para ajudar (risos). Mas a gente vai aos anunciantes, aos clientes. Quando o Anísio me convidou, eu falei: “Não quero ser patrocinado”. Não tem patrocinador, mas temos colaboradores, e você tem de arranjar verba com os colaboradores. Eu, como homenageado, não posso participar dando verba, mas posso pedir.

iG: O que você pensa da crítica de que foi oportunista a escolha do seu nome como enredo?

Boni: Não é nada oportunista. Estou há 15 anos longe da TV Globo, não tenho mais nada a ver. Acho até que a TV Globo ficaria mais contente se fossem homenageadas as pessoas que estão lá hoje, não os que saíram. Faço parte de uma história antiga da emissora, não da atual. A TV Globo não contribuiu com nada, nem com um centavo, mesmo porque, como ela tem o direito de transmissão do carnaval, ficaria muito desagradável se colocasse algum centavo. A homenagem é para mim, não tem nada a ver com a TV Globo. A emissora está sendo muito aberta no sentido de dar acesso ao material que faz parte da minha biografia.

Boni no barracão da Beija-Flor
Ricardo Ramos
Boni no barracão da Beija-Flor

iG: Mas é impossível te separar da Globo.

Boni: Sim, seria impossível. Fiquei 31 anos na Globo. Quando as pessoas comparam a Globo com a Beija-Flor, acho que são dois vitoriosos, duas empresas vencedoras. Mas acho que a emissora nem fica feliz de ser homenageada com um sujeito que foi responsável por grandes sucessos de outras épocas. Acho que até contraria alguns interesses da Globo (risos).

iG: Qual é a parte mais gostosa de ser tema de um samba-enredo?

Boni: Olha, eu acompanhei vários amigos que foram enredo: Tom Jobim, Ibrahim Sued, Janete Claire, e nunca me passou pela cabeça que um dia eu fosse enredo. Para mim era uma coisa muito distante, não tinha sentido. Mas quando você, de repente, é convidado, você leva um choque. Depois, a minha preocupação é que não fosse centrada na minha biografia, mas sim no trabalho da televisão. Se fosse um enredo especificamente sobre a minha vida, ninguém estaria reclamando, mas fui eu que não quis fazer assim. Quis estender isso aos profissionais da televisão, ao trabalho que foi feito no Brasil… Eu não sou Roberto Carlos, sou um homem de bastidores. Não tenho uma biografia por que o público se interesse.

Acompanhei vários amigos que foram enredo: Tom Jobim, Ibrahim Sued, Janete Claire, e nunca me passou pela cabeça que um dia eu fosse enredo. Era uma coisa muito distante


iG: De qual filme sobre carnaval você mais gosta? Você acha que o cinema deve um filme especial sobre o tema?

Boni: Deve, o cinema deve muito ao carnaval, porque a gente só vê o tema como pano de fundo. Gostei de um, que nem foi feito por um brasileiro, que foi a versão do “Orfeu Negro”, do Vinícius de Moraes. Embora o Carnaval não apareça ali de forma realista, é um momento bonito da emoção da festa. Agora, o carnaval da escola de samba, sobre esse o cinema está devendo um filme. Nada foi feito até hoje, nem um belo documentário, e nem uma história de ficção que tenha usado a escola de samba dessa maneira. Na Globo cheguei a fazer com o Paulo Afonso Grisolli o “Orfeu do Carnaval”, uma versão mais ligada ao desfile do que o próprio filme do Vinícius.

iG: Olhando para o barracão a gente fica impressionado com a grandiosidade da estrutura. Como você explica isso tudo dar certo na hora do desfile? Qual é o segredo do Carnaval?

Boni: Em todas as coisas, em primeiro lugar, é necessário que haja uma estrutura, uma hierarquia, um comando e que haja participação das pessoas que são comandadas. Aqui existe uma interação grande entre o Laíla, que é quem comanda, e o patrono, o Anísio, que se dispõe a fazer tudo de que a escola precisa. A escola é muito bem planejada, organizada, tem orçamento e tudo precisa ser cumprido. E a comunidade é a base de tudo isso. Em uma escola grande como a Beija-Flor, o pessoal não desfila de salto-alto. O pessoal vem para ganhar, com garra. O que faz tudo funcionar é o amor pela bandeira junto com a grande disciplina. O carnaval é uma indústria que tem muita semelhança com a televisão. É uma indústria artística. O desafio de ambas é chegar à simbiose de fazer um produto artístico e também industrial. Na televisão é muito difícil, e é a mesma coisa no carnaval.

O carnaval é uma indústria que tem muita semelhança com a televisão. É uma indústria artística. O desafio de ambas é a simbiose de fazer um produto artístico e também industrial


iG: Hoje você está diretamente envolvido com essa programação da Beija-Flor?

Boni: Eu sou palpiteiro (risos). Eles criam tudo aqui. Eu digo que eles fazem a empada e eu chego com a azeitona. Colaboro com palpites. Como tem muita coisa de tecnologia esse ano, sou mais envolvido nisso.

Claudia Raia, destaque de luxo no desfile da Beija-Flor em 2013
AgNews
Claudia Raia, destaque de luxo no desfile da Beija-Flor em 2013

iG: Você defende que as rainhas de bateria e musas das escolas sejam mulheres famosas, que dêem visibilidade para a escola, ou meninas da comunidade, que vivem a paixão pela escola?

Boni: Eu prefiro sempre a comunidade. Esse ano, por exemplo, foi ideia do Laíla cortar 500 participantes. O desfile tirou gente de fora para privilegiar quem é da comunidade. São 3700 pessoas que vão desfilar na Beija-Flor, e 80% disso são com fantasias dadas pela Beija-Flor. Ela só está vendendo algumas coisas de destaque, mas para pessoas que têm ligação com a escola. O resto todo é investimento da Beija-Flor, por isso também o custo tão grande. Mas o Anísio faz questão de que quem não pode pagar pela fantasia tenha a mesma de quem pode pagar. Isso é muito bacana, dá entusiamo, garra, essa questão de unidade para quem cria e quem produz. Não terá atriz de novela como destaque, já existe essa tradição na Beija-Flor de produzir o talento local.

iG: Você acha que tem alguma mulher que traduza o carnaval?

Boni: Difícil. O carnaval cresceu muito. No passado tinha algumas, aqui mesmo na Beija-Flor tinha a Pilar, uma mulher muito bonita, que tinha os cabelos raspados. Mas acho que hoje o carnaval está representado por essa massa que é a comunidade. Hoje, a festa se tornou mais rica do ponto de vista do investimento e tem a participação da massa.

iG: Mas os artistas que desfilam como destaque também fazem parte do carnaval.

Boni: Eu respeito meus colegas de trabalho, mas cair em cima de um artista… Os destaques artísticos, dentro da escola, precisam ser reduzidos. As personalidades não acrescentam nada, elas têm que desaparecer do carnaval e dar espaço ao conteúdo. A Beija-Flor tem a nossa linda e magnífica Claudia Raia , mas é uma pessoa que tradicionalmente já desfila aqui. Neste ano, os artistas são necessários no desfile porque o assunto é televisão. Teremos 50 atores da TV Globo no carro dos meus amigos. São pessoas do meu tempo, que começaram comigo e para quem eu devo o sucesso da Globo. Eles não podiam deixar de desfilar, mas não estarão de graça, e sim como parte da história.

iG: Você já está com a fantasia pronta?

Boni: Tenho duas fantasias prontas. Uma delas é de Charles Chaplin, a bateria vai sair toda como ele e eu sairia junto. Isso me agrada muito, porque eu adoro o Chaplin. A outra opção é no último carro, que é o carro da TV Beija-Flor. É uma unidade móvel que vai transmitir, do começo ao fim, a plateia da Sapucaí. Esse carro tem várias telas de LED, tem um globo central com a história das novelas, telejornais, esporte… Além do globo, tem dois totens chamados Hoje o Artista é Você. As câmeras estarão em cima do público o tempo todo. 

iG: É muita tecnologia mesmo envolvida, né?

Boni: Comunicação é comunicação. Fora essas telas e os totens, há um cubo onde vamos projetar as fotografias online. Se você postar a fotografia na internet, nós temos um sistema que detecta em qual setor você está na avenida. Quando esse carro estiver passando por seu setor, sua fotografia será exibida. Tem mais televisão! No carro 7, vamos mostrar os tapas dados na TV, os beijos, as lutas, emoções, grandes cenas… Isso vai ser projetado atrás das 50 pessoas do elenco. O diretor desse carro é o Jorge Fernardo, e ele vai levar uma câmera na cabeça, e isso também é transmitido no carro. Sobre a comissão de frente, ainda podemos falar bem pouco, mas teremos a transmissão de câmeras para fora do carro e projeções no chão da avenida.

Em comum com o carnaval tenho o fato de ser extrovertido. Boêmio não mais, porque a idade não permite, mas fui muito na juventude. Tenho muita ligação com o carnaval, acho uma manifestação espontânea de alegria.


iG: Se pedissem para você escolher um enredo para uma escola, qual seria?

Boni: Eu falaria sobre os artistas que constroem o maior espetáculo da terra. Falaria só sobre os bastidores do Carnaval.

iG: Quais suas características pessoais que são comuns com o carnaval, Boni?

Boni: Eu sou extrovertido. Boêmio não mais porque a idade não permite, mas fui muito na juventude. Tenho muita ligação com carnaval, acho uma manifestação espontânea de alegria. Quando o carnaval é feito com respeito, carinho, quando as pessoas não saem fazendo xixi em tudo quanto é lugar, quando as escolas têm organização, eu acho isso maravilhoso.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.