Álvaro Costa e Silva, o Marechal, analisa os enredos das escolas do Rio. Para ele, o ex-craque Zico foi acerto da Imperatriz Leopoldinense, ao passo que homenagear Ayrton Senna e Boni lhe parecem engano e oportunismo por parte da Unidos da Tijuca e da Beija-Flor

O carnaval se aproxima, os ensaios nas escolas já estão a mil, a expectativa em torno dos desfiles só aumenta. Quem frequenta os barracões já teve chance de ver uma prévia do que serão os desfiles, mas desfile de carnaval é igual festa de casamento: tudo junto, com todos os detalhes combinados, só acontece uma vez, na hora H.

Por enquanto, e até o carnaval chegar, nos resta esperar e torcer para que a inspiração dos carnavalescos nos divirta, encante, emocione e surpreenda na avenida.

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O iG convidou um especialista, Álvaro Costa e Silva, o Marechal, para fazer uma análise das escolhas dos temas dos sambas das escolas cariocas do grupo especial para o carnaval 2014. “O que tem acontecido ultimamente é o seguinte: o carnaval não para de ficar caro”, explica Marechal. “Por uma questão econômica principalmente, houve refluxo de investimentos dos chamados patronos grandes, os bicheiros. As escolas de samba têm ajuda da prefeitura com determinada verba, que deve estar na casa do R$ 1 milhão. Um desfile de escola campeã custa R$ 6 milhões, então a escola apela para patrocínios, e isso tem estragado um pouco a escolha dos temas. Vamos supor que a escola receba uma oferta da prefeitura de Campo Grande, que investe para ter um desfile sobre a cidade. Ninguém pode proibir a escola de falar de Campo Grande, por menos que a cidade tenha a ver com a tradição da escola e com o carnaval. O desfio do carnavalesco é transformar um tema esdrúxulo em um bom desfile.”

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Veja a seguir o parecer de Marechal e o que podemos esperar dos desfiles que acontecem na Sapucaí nas noites de domingo (2 de março) e segunda-feira (dia 3), a partir das 21 horas. 

DOMINGO, 2 DE MARÇO:

Desfile 1.: Império da Tijuca

Enredo: “Batuk” – Batucadas que vieram da cultura africana

“É aquele enredo africano, tradicional, sem muita criatividade, mas com muita identificação com o carnaval, com a escola de samba. Fala de percussão, de ritmo, de batuque. É muito parecido com desfiles anteriores, como o que o Salgueiro apresentou em 2009, quando a escola foi muito bem.

O curioso é que a Império é uma escola pequena que surpreendeu o ano passado ao ganhar o grupo de acesso. É a escola do Morro da Formiga, na Tijuca - assim como o Salgueiro -, e a característica dela é ter muita gente da comunidade. Se o povo de lá ‘comprou’ esse enredo, o desfile tem tudo para ser muito empolgado.

'Vai tremer, o chão vai tremer' é o samba que já está na boca do povo, o único que pegou espontaneamente." (Sobre o enredo da Império da Tijuca)

Outro detalhe é o seguinte: é o samba que já está na boca do povo, o único que pegou espontaneamente. O refrão “Vai tremer, o chão vai tremer”, já está sendo usado em muitos blocos por aqui. É uma escola pobre, que não tem muito dinheiro para gastar, mas já saiu com essa vantagem, além da comunidade que é muito participativa.”

O desfile da Grande Rio na noite das campeãs no carnaval 2013
AgNews
O desfile da Grande Rio na noite das campeãs no carnaval 2013

Desfile 2.: Acadêmicos do Grande Rio

Enredo: “Verdes olhos sobre o mar no caminho: Maricá” – História de Maricá e homenagem a Maysa

“Esse tema parece o samba do crioulo doido, deve ter patrocínio da cidade de Maricá. A dificuldade do carnavalesco é colorir o patrocínio para não ficar muito evidente”, diz Marechal.

É esperar para ver, mas um dos elementos do desfile deve ser a escultura de bronze da cantora Maysa que há na cidade, onde ela também dá nome a uma avenida.

A cantora passou os últimos anos de vida numa casa na Praia de Cordeirinho. Em seu diário, Maysa escreveu: "Só fui feliz em Maricá".

Desfile 3.: Beija-Flor de Nilópolis

Detalhe do desfile da Beija-Flor que homenageia Boni e vai custar R$ 15 milhões
Ricardo Ramos
Detalhe do desfile da Beija-Flor que homenageia Boni e vai custar R$ 15 milhões

Enredo: “O astro iluminado da comunicação brasileira” – Homenagem ao Boni

“Tremenda bola fora da Beija-Flor. Nos últimos tempos, a escola virou uma espécie de bicho papão, está sempre por ali, o povo teme pela fama. Homenagem ao Boni? Não tenho nada contra ele, fez muito sucesso, mas a escola precisa prestar atenção na maneira de trabalhar, não devia precisar desse tipo de coisa. É uma escola de samba, não uma revista de celebridades. Boni não tem nada a ver com carnaval a ponto de merecer ser homenageado – é uma ideia pirante, me parece oportunismo. A escola está buscando apoio da TV Globo, influência, visibilidade, atrair famosos da TV, atrair mais mídia. Não sei até que ponto ele próprio não está envolvido de alguma maneira.

Tremenda bola fora da Beija-Flor. Nos últimos tempos, a escola virou um bicho papão, está sempre por ali, o povo teme pela fama."

É um personagem que não faz parte da cultura do samba, talvez não tenha aceitação dentro da escola. As escolas não costumam ver bem essas homenagens a empresários – Beto Carreiro foi homenageado pela Império Serrano, Mangueira homenageou o Chico Recarrey, e o desfile veio muito mal. Você acaba percebendo que aquilo ali é água e vinho, não se misturam.”

Desfile 4.: Salgueiro

Enredo: “Gaia – a vida em nossas mãos” – Exaltação e história de Gaia: o envolvimento do ser humano com o planeta Terra

“É um enredo diferente, meio viajante, também naquela linha que depende de como o carnavalesco vai conduzir. A escola ainda tem muita presença da comunidade do morro de Salgueiro, e aqui depende muito também de como essa comunidade entende e aceita o enredo. Se ele for bem explicado, se comprarem a ideia, ótimo. Se há resistência do pessoal, se a comunidade não gosta do samba e do enredo, complica. Me parece que esse é um desses casos.”

Desfile 5.: Estação Primeira de Mangueira

Enredo: “A festança brasileira cai no samba da Mangueira” – A alegria das comemorações do povo brasileiro

“Como ponto de partida, a festança brasileira é um tema amplo, assim como a alegria do povo, não sei o que pode sair disso. Como cabeça de juiz e bunda de neném, você nunca sabe o que pode sair da cabeça de um carnavalesco. É o que eu já disse antes: tudo depende de como o tema é tratado. A Mangueira tem passado por problemas nos últimos anos, teve de se reerguer de colocações ruins, de brigas internas políticas depois que deixou que a escola ficasse muito envolvida com tráfico de drogas. A Mangueira foi uma das escolas que tinha melhor resolvido a questão de patrocínios, conseguiu apoios legais que se reverteram em ótimos desfiles, mas depois acabou se perdendo um pouco. Agora está tentando recuperar a glória dos tempos áureos da escola.”

Como martelo do juiz e bunda de neném, você nunca sabe o que pode sair da cabeça de um carnavalesco. Uma obra-prima, ou uma verdadeira m..."


Desfile 6.: São Clemente

Enredo: “Favela” – Costumes, arquitetura e personagens dos morros

“Gosto da ideia, acho que pode ficar bonito. É um tema em evidência desde a pacificação. Os morros têm atraído cada vez mais a visita de turistas, e os turistas vêem muito os desfiles hoje em dia. O carnaval tem essa característica de ser uma coisa para exportação. A escolha do tema certamente não tem a ver com patrocínio.”

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE MARÇO:

Desfile 1.: Mocidade Independente de Padre Miguel

Enredo: “Pernambucópolis” – Homenagem ao estado e ao carnavalesco Fernando Pinto, pernambucano que deu à Mocidade o título de 1985 – Ziriguidum 2001

“Vejo aí a tendência de mascarar o patrocínio: pega uma figura lá do estado ligada ao carnaval e faz homenagem também a Pernambuco. O atual governador (Eduardo Campos) quer aparecer e o tema tem toda a pinta de ser patrocínio maquiado.”


Passista da União da Ilha, Bruna Bruno desfilou com fantasia incrementada em 2013
AgNews
Passista da União da Ilha, Bruna Bruno desfilou com fantasia incrementada em 2013


Desfile 2: União da Ilha do Governador

Enredo: “É brinquedo, é brincadeira; a ilha vai levantar poeira” – Infância, brinquedos e brincadeiras

“Quando a escola apareceu, foi fazendo um carnaval lindo, descontraído e leve. A escolha do tema tem tudo a ver com a escola, investe na tradição da União da Ilha, que tenta se firmar no grupo especial. É esperar para ver como será feito, se terá dinheiro para investir num desfile que amplifique as características da escola.”

Desfile 3.: Unidos de Vila Isabel

Enredo: “Retratos de um país plural” – Pluralidade nacional, com homenagens a Chico Mendes e Câmara Cascudo

“Tem saído muito rica nos últimos anos, o que não é da história da escola, então se falou que a Vila Isabel tem um mecenas com muito dinheiro. Tem procurado fazer enredos mais políticos e chegado muito bem, muito luxuosa. Foi um encontro muito acertado a verba para os desfiles com a vibração do morro, os componentes muito empolgados, que participam dos ensaios. Acho que o tema deste ano pode dar certo e que eles são fortes concorrentes ao título.”

Tem saído muito rica nos últimos anos, o que não é da história da escola, então se falou que a Vila Isabel tem um mecenas com muito dinheiro."

Desfile 4.: Imperatriz Leopoldinense

Enredo: “Arthur X – O Reino do galinho de Ouro na Corte da Imperatriz” – Homenagem a Zico

“Aí você vê uma escolha acertada. Quem é que não vai gostar de uma homenagem a Zico? Além de ter sido dos maiores jogadores da história do Flamengo, é um personagem muito simpático da história do Rio, anda sempre pela rua, nunca se negou a dar autógrafo, tem espírito carioca e carnavalesco, gosta de carnaval, gosta de ver os desfiles. Não é como o Júnior, que tem um camarote próprio na Sapucaí, mas o Zico sempre vê os desfiles, participa como pode, já desfilou no carnaval. Homenagem ao Zico é um tema bem escolhido.”

Desfile 5.:  Portela

Enredo: “Um Rio de mar a mar. Do Valongo à glória de São Sebastião” – História da Avenida Rio Branco

“No ano passado, a escola fez enredo homenageando o bairro de Madureira, celeiro de sambistas e reduto popular das tradições suburbanas, que completava 400 anos. A escola pretendia falar da Lapa, mas à última hora o prefeito Eduardo Paes, que se diz portelense de carteirinha, sugeriu a mudança da Lapa para Madureira. Junto, teria vindo uma verba extra dos cofres públicos.

O enredo desse ano, a história da Avenida Rio Branco, não pode ser condenado, é um bom enredo e ponto. Mas o que se comenta à boca pequena, já que a Portela está muito ligada ao prefeito da cidade – ele vai à quadra da escola e tem um de seus bolsões em Madureira, ficou muito querido nessa área, onde realizou muitas melhorias e teve votação muito expressiva – é que talvez tenha havido uma ajuda extra da prefeitura. É minha opinião, não posso provar isso, mas não me espantaria. O prefeito tem planos para fazer uma Rio Branco diferente, que traduziria a tentativa de mudar a face urbana do Rio de Janeiro.”

Cena do desfile campeão da Unidos da Tijuca em 2012
Reprodução
Cena do desfile campeão da Unidos da Tijuca em 2012

Desfile 6.:  Unidos da Tijuca

Enredo: “Acelera, Tijuca!” - Homenagem a Ayrton Senna

“Não me agrada a escolha desse tema. O que tem a ver o carnaval com o Ayrton Senna? Não tenho memória dele na Sapucaí. Se esteve lá alguma vez, se é que esteve, deve ter sambado muito mal, se é que sambou. Claro que ele é um esportista brasileiro de muito sucesso, não estou dizendo que não merece uma homenagem, mas cada coisa no seu lugar.

Não me agrada a escolha desse tema. O que tem a ver o carnaval com o Ayrton Senna? Não tenho memória dele na Sapucaí

Mas é aquele negócio: a escolha do tema é apenas uma parte do processo. O que é determinante para o desfile é como o tema foi tratado pelo carnavalesco, se o samba conseguiu traduzir o tema, se a escola entendeu o tema. Claro que o tema é importante, porque dele vai derivar todo o resto, mas o importante mesmo é que seja tratado de forma surpreendente, com criatividade, com um bom samba enredo, e pode funcionar.”


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