Desfile autêntico reflete o bom momento da escola, que passa por uma das melhores fases de sua trajetória


É bonito ver uma escola com samba-enredo de verdade. Que diferença faz, tanto no ânimo dos componentes quanto na recepção das arquibancadas. Foi o que fez a Vila Isabel ao encerrar em grande estilo os desfiles da segunda noite do Grupo Especial.

Para contar em versos e música o enredo “A Vila conta o Brasil celeiro do mundo: água no feijão que chegou mais um”, a escola do bairro de Noel Rosa convocou Martinho da Vila e Arlindo Cruz, dois dos maiores compositores de samba da atualidade, mais André Diniz, Tunico da Vila e Leonel, que ganharam limpamente a disputa na quadra.

De uns tempos para cá, uma prática nociva tomou conta do carnaval carioca. Trata-se dos chamados “escritórios”, nos quais compositores de verdade e testas de ferro formam grupos que disputam o concurso de samba-enredo em diversas escolas. Há quem tenha vencido quatro, cinco vezes, mas nunca fez um verso, uma melodia.

Refutando tal negócio, quem ganhou foi a própria Vila, fazendo a arquibancada cantar em coro o refrão “Ô muié, o cumpadi chegou/ Puxa o banco e vem prosear/ Bota água no feijão, já tem lenha no fogão/ Faz um bolo de fubá”.

A escola passa por um dos melhores momentos de sua trajetória, bem administrada, com dinheiro em caixa e a comunidade do Morro do Macaco unida. Bastava ver os ensaios técnicos de rua, realizados em frente à quadra do Boulevard 28 de Setembro, para sentir isso. E para ter certeza de que o Carnaval viria para disputar título. Como de fato veio.

O enredo sobre agricultura – patrocinado pelo empresa Basf, que liberou verba de R$ 3,5 milhões – baseou-se num dia de trabalho do homem do campo. Com o talento da carnavalesca Rosa Magalhães (seis títulos no currículo), vimos a fé, a culinária, a prosa do matuto, as festas do interior.

A ala das baianas estava uma graça, com as integrantes vestidas de joaninhas. E chamaram a atenção, de tão impactantes, o carro abre-alas (com um enorme sol de oito metros de altura feito de isopor), o tatu-bola de 15 metros de comprimento e o carro dos girassóis, com sessenta pessoas fazendo a chamada alegoria viva.

Antes da “felicidade no amanhecer” – como diz o último verso do samba-enredo – as arquibancadas, pela primeira vez nos dois dias de desfile, gritaram: “É campeã! É campeã!”.

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